No Dia Internacional e Nacional para a Eliminação da Discriminação Racial, assinalado no último sábado, dia 21, o “O Tal Podcast” aceitou o convite da Casa Capitão, em Lisboa, para se juntar a um dia de reflexão, com a gravação de um episódio especial. Ao vivo, com a participação do público e a presença dos podcasters José Rui Rosário e Justino Sacalumbo como convidados, a conversa partiu de um compromisso: “Desfazer o silêncio, confrontar o ruído, e assumir o lugar de fala”.
Enquanto a pandemia impunha distanciamentos sociais, José Rui Rosário, assistente técnico na Câmara do Seixal, juntava-se a dois amigos para lançar “O Lado Negro da Força”, apresentado como “um lugar de escuta de vozes raramente ouvidas”, nomeadamente “portugueses negros, migrantes e pessoas racializadas”.
No mesmo período, marcado por muitas interrogações, o técnico de audiovisual Justino Sacalumbo saía de Angola e fixava-se em Portugal, onde acabou por criar “O Despertador Podcast”, como via para refletir sobre o que sempre teve vontade de questionar, abrindo também espaço para que outras pessoas se expressem.
Cada qual com o seu projeto, os dois convidados contam, neste episódio de “O Tal Podcast”, como o ato de partilhar percursos de vida se revelou uma via de transformação.
“O que tu viveste ontem hoje pode bater de frente com o que alguém esteja a passar. Isso salva vidas”, sublinha Justino, enquanto José Rui destaca o efeito terapêutico de cada encontro. “Foi tão bom saber que não estou sozinho, que as nossas histórias coincidem em muitas coisas, e que continuamos a ter força para acreditar na mudança”.
Sem nunca perder a ligação ao coletivo, o cofundador de “O Lado Negro da Força”, e da plataforma antirracista Kilombo, defende, nesta conversa com Georgina Angélica e Paula Cardoso, que a única forma de quebrar o silêncio sobre o racismo é “dizer o que é isto de nos sentirmos um corpo ausente, diferente, limitado ou acossado, cientes de que isto é uma maratona”, e não é uma corrida de 100 metros.
Mas, como falar quando isso pode custar o ganha-pão?
Justino arriscou. “Saí de um emprego quando me disseram: ‘és espetacular, trabalhas bem, mas tenta não falar muito angolano’”.
Confiante na sua identidade africana, o angolano explica que valoriza muito o sotaque, enquanto “a pronúncia linguística que identifica um povo, uma cultura, um indivíduo, uma nação”. Ao mesmo tempo, o podcaster destaca a resistência geradora do crioulo cabo-verdiano, distinção que sobressai na história de José Rui.
“Em casa, a minha mãe só falava crioulo. Esta questão da língua sempre foi algo que ela transformou em batalha, em afirmação”.
A herança, nota o também vocalista da banda rock Dixit, celebra-se para além das ligações familiares. “Falar crioulo continua a ser uma forma de resistência, uma forma de dizer que eu honro os meus ancestrais. Fico muito orgulhoso quando vejo os miúdos, nos bairros, a falar crioulo”.
É também na continuidade que José Rui encontra caminho. “Quando temos filhos estamos condenados a ter esperança. Tenho esperança nos meus filhos, em que se este planeta prevalecer ainda teremos pessoas que possam fazer a diferença”.
Já Justino, vê possibilidades na entrega, no compromisso de dar o melhor de si “naquilo que tem a ver com a consciência negra, a igualdade, o poder, o direito”.
Ouça aqui o episódio completo, encerrado com a intervenção do público.

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