Manequim com carreira internacional, que tem no currículo campanhas para gigantes da moda, como Dolce&Gabbana, Gucci, Prada e Louis Vuitton, Cláudio Gonçalves não esquece de onde veio. “Os bairros sociais e as comunidades imigrantes foram o planeta onde cresci e o princípio de tudo”, conta neste episódio de “O Tal Podcast”, em que recorda as privações da infância – transformada a partir da adoção –, e revela como o sucesso nas passerelles o inspira a transformar vidas.
Nas ruas da Cova da Moura cabia todo o mundo de Cláudio Gonçalves, até ser retirado da família. Tinha cerca de seis anos, e dava nas vistas pela infância errante, denunciada pelos vizinhos à Segurança Social.
“A minha mãe tinha três trabalhos e só a conseguia ver uma vez por semana, se tanto. Eu vivia com a minha avó, que era alcoólica”, recorda o manequim, que chegou a roubar para comer.
Hoje manequim de sucesso, o convidado de Georgina Angélica e Paula Cardoso rejeita endeusamentos e romantizações.
“Estou sempre a dizer: eu não sou especial, eu tive toda uma quantidade de recursos, uma educação diferente, que me meteram na posição em que estou. Isso é que mudou a minha vida: ter acesso a coisas que um jovem num bairro social não tem”.
Com um início de história marcado pela separação da família, Tibunga, como também é conhecido, conta que antes de ser adotado pela sua antiga professora, agora mãe, chegou a um ponto em que “já nem sabia se estava melhor na rua ou na instituição”.
Além das lutas diárias em que as crianças se envolviam, Claúdio revisita o sistema de abusos. “Tinha um trabalho de escravo, a descascar batatas de manhã à noite, a cavar campos e fazer 30 por uma linha. Coisas a que uma criança daquela idade [seis anos] não devia ser submetida”.
O ambiente de violência, agravado pela austeridade religiosa que o regia, assemelhava-se a “um campo de concentração”, compara o manequim, lembrando que, ali, as vidas encolhiam.
“Dormíamos num contexto de prisão, em camas individuais de ferro, em que cada um tinha uma gaveta, daquelas de mesa de cabeceira. Tinha lá dentro uma foto da minha mãe, uns berlindes, e pronto. A nossa existência era aquela gaveta”.
Sem nunca perder de vista as marcas do passado, Cláudio constrói, no presente, um caminho para abrir novos futuros.
“Há uma limitação nos sonhos dentro dos bairros sociais, em que os meninos querem sempre ser futebolistas ou aquele estereótipo que já se conhece”, nota o manequim, empenhado em transformar essa realidade.
“Se não fosse a minha mãe a resgatar-me daquela instituição, provavelmente ficava lá até os 18 anos, nunca teria sido modelo, estava a trabalhar numa caixa registadora qualquer. Sabendo isto, é minha obrigação voltar para trás e dizer: vou mostrar a um Cláudio de agora que é possível, e vou lhe dizer como é possível”.
O compromisso social ganha expressão em bairros das periferias de Lisboa, onde o manequim identifica um enorme potencial de mudança.
“Pessoas de sucesso nos bairros sociais há muitas, que conseguiram vencer e sair. Só que é necessário que voltem atrás e digam: vou ensinar os outros para conseguirem também”.
Enquanto inspira e influencia mudança, o manequim aponta igualmente para outros voos. “Um dos meus sonhos de vida é voltar para África, criar um império e empoderar as pessoas. Gostava muito que fosse em Cabo Verde”.
Ouça aqui a conversa com Georgina Angélica e Paula Cardoso.

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