Vislumbrou na Psicologia uma tábua de salvação da própria dor e acabou frustrado, admite Kai Fernandes, o convidado desta semana de “O Tal Podcast”. Entretanto reconciliado com a sua área de estudos, o psicólogo percebeu, a partir do início da prática clínica, que teria de se ajudar para conseguir ajudar. Das feridas da adoção, aos traumas do racismo, a que se junta o processo da transição de género, a identidade de Kai representa, para muitas pessoas, a única via de reconhecimento. “Existem poucos psicólogos como eu: negro, trans, jovem, e que vive as não monogamias”.
Estávamos em 2020, quando o assassinato de George Floyd confrontou Kai Fernandes com as próprias sombras. “Percebi que não havia mais espaço para ignorar o impacto que o racismo tinha na minha vida”, recorda o psicólogo, de volta ao facto marcante que o levou a criar a página “Quotidiano de uma negra”, no Instagram.
“Era muito raro ter contacto com outras pessoas negras. Ter sido adotado por pessoas brancas, e ter crescido num espaço inteiramente branco se calhar atrasou o processo de encontrar a minha identidade”, conta o terapeuta.
Noutro momento decisivo da sua história, vivido em 2023, numa viagem à Tailândia, o psicólogo começou a perceber em si uma desconformidade entre identidade de género e sexo biológico.
“As pessoas falam muito do feminino e do masculino. E às vezes tenho dificuldade em encaixar-me nessa ideia binária. Daí a não binariedade, daí a ideia de transgénero”.
Hoje, e já depois de outro 'voo de reconhecimento' em direcção a Banguecoque, Kai não tem dúvidas sobre a sua afirmação.
"Sinto uma liberdade muito grande quando me expresso de uma forma masculina, porque me permite criar uma masculinidade que acredito que possa realmente ser uma mudança no mundo".
Distanciado dos modelos de masculinidade que se habitou a observar enquanto crescia, o psicólogo sublinha a importância de quebrar padrões tóxicos.
"Há momentos em que sinto saudades de meter uma maquilhagem ou usar uma roupa mais feminina”, diz, libertando-se da necessidade de encaixar em normatividades.
"O contraste entre o meu corpo feminino, de mulher biológica, com esta expressão da masculinidade define-me muito bem”.
Negro, trans, jovem, e muito interessado no território das relações não-monogâmicas, Kai encontra nas suas expressões identitárias a explicação para a diversidade de pertenças e geografias que recebe em consultório.
"Muitas pessoas querem ter alguém do outro lado, na terapia, que tenha uma semelhança com elas. Há muitas coisas na minha identidade que são a representação dos meus clientes", assinala, sem romantizações.
"A minha experiência não é representativa da maior parte das pessoas trans. As pessoas que me são próximas, no geral, acompanharam a minha transição. Senti muito acolhimento”.
Além do papel desempenhado por quem o rodeia, Kai destaca a influência dos lugares.
“Banguecoque foi o sítio onde eu passei a ser quem eu era e ninguém me questionou. Nem por ser negro, nem por me vestir de uma forma masculina. Ninguém me estranhou. Isso teve um poder gigantesco”, reconhece.
Ouça aqui a conversa completa com Georgina Angélica e Paula Cardoso.

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