Enquanto o Brasil vivia o conturbado processo de afastamento da então Presidente Dilma Rousseff, Amina Bawa encontrava, em Portugal, uma espécie de “oásis” político. Estávamos em 2016, e o mestrado em Cultura e Comunicação abria as portas para uma nova casa. Dez anos depois da mudança, a jornalista e produtora cultural partilha, neste episódio de “O Tal Podcast”, o seu olhar sobre as transformações políticas em curso em Portugal, além de refletir sobre fronteiras raciais, familiares e académicas.
Apresenta-se como “100% brasileira e carioca”, mas faz questão de acrescentar ao cartão-de-visita genético 50% de herança nigeriana. “O meu pai deixou o Brasil quando eu era muito nova. Fez a licenciatura, mestrado, doutoramento, e voltou para a Nigéria, [o seu país]”, adianta Amina Bawa, que, já depois dos 20 anos, recuperou a ligação ao lado paterno.
O contacto, desde o falecimento do pai transferido para os tios, ‘alimenta-se’ com comunicações regulares, prelúdio de uma viagem – ainda por concretizar – ao encontro das origens africanas.
Para já, porém, os planos de voo cumprem-se, com crescente intensidade, entre Portugal e o Brasil.
Habituada a transitar entre os dois lados do Atlântico, a jornalista e produtora cultural tornou-se uma inesperada conselheira de viagens.
“Dou muitas orientações a pessoas que querem vir para Portugal estudar”, diz a carioca, que, a partir da sua experiência de mestrado, começou a facilitar aprendizagens.
As recomendações não se restringem, contudo, ao mundo académico, embora ele seja palco de muitas vivências.
“Tive professores dizendo: ‘hoje, vocês, investigadores, usam de uma vertente muito pessoal para falar e trazem isso para a academia. E eu pensava: que ótimo! É maravilhoso quando eu falo de mim, não do outro”.
Atenta às fronteiras que comprimem os trabalhos de pesquisa, Amina recorda, nesta conversa, o desconforto de querer “falar de pessoas pretas que estão sendo felizes, e que são bem-sucedidas dentro dos seus negócios”.
Ainda no domínio da academia, a carioca assinala que “há uma diferença muito grande entre o Brasil e Portugal”. Desde logo, nota a jornalista, “a gente fala muito da negritude, mas como é que a gente estuda quem criou esse conceito?”.
Para já, a resposta vem apenas do outro lado do Atlântico, onde se criou o Observatório da Branquitude.
Por cá, seguimos com as observações da convidada de Georgina Angélica e Paula Cardoso, também voltadas para as relações afro-brasileiras.
“No Brasil, tudo está muito conectado com África, mas a gente não conhece, é uma África que está muito no imaginário. E quando venho para Portugal, tenho um embate com as realidades africanas, o que é maravilhoso”.
Noutros “choques” de realidade, partilhados neste episódio, Amina revisita eleições de má memória – “Falo, brincando e com muita humildade, que nós brasileiros viemos do futuro. Tudo o que Portugal vai passar [politicamente], a gente já viu” – , e traumas de viagem.
“Não tenho medo de viajar sozinha, mas na Hungria já fui perseguida, quase sequestrada. Eles sequestram muitas mulheres para o tráfico sexual”.
Ouça a conversa completa aqui.

Ana Josefa Cardoso: “Na escola, não aprendemos só a ler, a escrever e a contar, porque o professor não ensina só o que sabe, também ensina o que é”
59:31

ROD: “O futuro é queer. Queer é esse confronto, esse contraste, essa luta sem fim, essa tentativa de desencaixar de expectativas, de ter 50 anos, mas parecer ter 20”
1:01:44

Carlos Lopes: “É um orgulho tremendo ter amigos há quase 50 anos. Há um núcleo muito forte de partilha, amor, irmandade”
1:01:18