Quase meio século depois da Revolução Islâmica ter instaurado no Irão um poder teocrático tão duradouro quanto a ditadura em Portugal, o ataque conjunto dos Estados Unidos e Israel derrubou o regime dos aiatolas e vem abrir uma nova frente de guerra no Médio Oriente. Enquanto mísseis e drones atingem Teerão, paira a pergunta sobre esta República Islâmica que derrubou uma monarquia em nome da fé: é o Irão apenas um regime dos aiatolas, ou é herdeiro de uma civilização persa milenar, ponte histórica entre Europa e Ásia, marcada por encontros sucessivos com o mundo grego, romano e europeu?
A partir desta atualidade Rui Tavares recua ao século XVIII para revisitar uma embaixada persa enviada a Luís XIV e a reação fascinada e perplexa da corte francesa diante daqueles “exóticos” orientais. Deste choque de culturas nasceu o livro Cartas Persas, onde Montesquieu inverte o ponto de vista exótico e imagina como seriam os persas a descrever os europeus. Em Cartas Persas, Montesquieu inaugura o jogo de estranhamento que está na origem do Iluminismo e da crítica às certezas religiosas e políticas da Europa.
Este episódio de Tempo ao Tempo propõe ler o Irão de hoje à luz dessa longa história de encontros, mal‑entendidos e espelhos: talvez, sugere Rui Tavares, não se possa compreender o que significa ser europeu sem ser, pelo menos um pouco, persa.

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