A Frederico Lourenço devemos-lhe estes épicos trabalhos: em 2003 traduziu em verso, do grego, a Odisseia de Homero (pela qual recebeu o Prémio D. Dinis da Casa de Mateus e o Grande Prémio de Tradução APT/Pen Clube), e, dois anos depois, a Ilíada; em 2016, passou dos clássicos gregos para a Bíblia grega, e isso foi o pretexto mais próximo para a atribuição do Prémio Pessoa.
É também ficcionista, ensaísta e poeta. E professor universitário. Concentrado nos estudos e na tradução do grego e do latim, não deixou no entanto de ser o cinéfilo que sempre foi. Trabalhou inclusivamente como crítico deste jornal.
E foi por isso também que tivemos o prazer de fazer este herói regressar a casa. Por um episódio do podcast No Escuro. Para nos explicar as suas razões: é que decidiu não ir ver A Odisseia, de Christopher Nolan.
Têm de ouvir a conversa para saber porquê. Resumido seria assim: desde os oito anos, quando leu pela primeira vez uma versão juvenil de Odisseia, que o futuro helenista tem todo esse filme na cabeça; por isso, tudo o que alguém queira acrescentar com actores e efeitos especiais, não menosprezando a capacidade de uma grande produção em levar mais leitores aos clássicos, parece-lhe redundante.
Mas nós vimos o filme. E como o resto do mundo, estamos divididos. Entre a crença na proposta de aventura e, do outro lado, a confirmação de que Christopher Nolan pensa e opina como um cineasta do século XX — a importância das salas e o sortilégio da película, o braço de força com as plataformas de streaming — mas faz filmes do século XXI: uma sopa triturada, sem dar a provar a distinção, a nobreza, dos ingredientes que utiliza.
Em suma, também se pode perguntar: é redundante ou é útil esta entrega de Ulisses a quem nunca pensaria em ler a Odisseia e pode, afinal, aventurar-se por ela?
No Escuro é um podcast com os jornalistas Alexandra Prado Coelho e Vasco Câmara, para ouvir todas as sextas-feiras no site do jornal ou na sua plataforma preferida. A música do genérico é um trecho de The Hidden Desert, gentilmente cedido por Rodrigo Amado Quartet (Rodrigo Amado, Joe Mcphee, Kent Kessler e Chris Corsano). E o nosso lema, o nosso apelo, é: #levantemoraboevaoaocinema

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