Na Netflix a partir de hoje é possível ver Possible Love, de Lee Chang-dong, cineasta coreano. Ou então em sala, em sessão única, no Leffest, que hoje começa. É a única oportunidade de o experimentar de forma clássica. O filme merece-o.
Não há em Possible Love uma moral da história, nem crime e castigo, nem espectáculo de “filme de género” e de acção, com os ricos e os pobres às turras, como os espectadores aplaudem depois do sucesso de Parasitas, de Bong Joon-ho (2019). Este é um filme nascido do confronto de um tímido com as imparáveis mudanças nas sociedades.
É um olhar formado pela ansiedade. Na sua atenção aos gestos e olhares (a montagem é suave mas arrebatadora), parte de uma dúvida, de uma perda, que se agiganta. Pode não dar respostas, mas olha a vida e as pessoas como se elas merecessem toda a majestade. Tendo sido posto em marcha, o filme, pela seguinte e insanável ansiedade: o trabalho, a utilidade à sociedade, faz a nossa identidade? Somos escravos dele?
Se ficamos desempregados, deixamos de saber quem somos? Os dilemas de dois casais, no filme, são os nossos. Mesmo não esquecendo as particularidades da sociedade coreana, dos valores da obediência e da hierarquia.
O cinema não tem sido alheio a esta inquietação. Rosetta, dos irmãos Dardenne, anunciou dessa forma o século XXI. A Lei do Mercado, de Stéphane Brizé, em 2015, continuou a inquietar-se. Possible Love toma conta da problemática: filma-a como comédia humana.
No extremo oposto, em registo transbordante, está outra das estreias da semana: A Bola Negra, de Javier Calvo e Javier Ambrossi. Um épico histórico-queer em que circula um texto incompleto de García Lorca por várias personagens em diferentes épocas. Cinco milhões de espanhóis já o viram. A conversa que sobre não é sobre o mundo do trabalho, começa a ser sobre Óscares.
No Escuro é um podcast com os jornalistas Alexandra Prado Coelho e Vasco Câmara, para ouvir todas as sextas-feiras no site do jornal ou na sua plataforma preferida. A música do genérico é um trecho de The Hidden Desert, gentilmente cedido por Rodrigo Amado Quartet (Rodrigo Amado, Joe McPhee, Kent Kessler e Chris Corsano). E o nosso lema, o nosso apelo, é: #levantemoraboevaoaocinema.



