O cinema faz mal? Pôr uma criança de 12 anos, a idade de Brooke Shields em 1978, a fazer um papel altamente sexualizado como o que fez em Pretty Baby é difícil de aceitar hoje?
Neste episódio de No Escuro voltamos aos filmes "malditos" a pretexto do regresso algo tonitruante em terras de Sua Majestade de The Devils, filme de Ken Russell. Até hoje só tinham circulado cópias truncadas, e uma cena em particular, conhecida como a "violação de Cristo", tornou-se mítica precisamente porque nunca fora vista. Volta agora aos cinemas britânicos, esse filme com odor blasfemo, passados 50 anos da estreia (algum distribuidor em Portugal se interessará?). É a versão original, como o realizador a concebeu. Procede-se simultaneamente a uma revisão do lugar de Russell no cinema britânico e internacional, ele que foi sempre liminarmente recusado pela crítica que o recebia com mimos como "grotesco"; agora, depois de morto, está a ser bafejado pelo trabalho escultural do tempo.
Mas serão os espectadores de 2026 semelhantes aos da década de 70, ou seja, aventureiros e dispostos a serem violentados?
Partimos do The Devils — filme que teve Derek Jarman na equipa de direcção artística — para mais uma viagem (que já tínhamos iniciado no episódio anterior) por obras que causaram escândalo e fascínio, repulsa e admiração, simultaneamente. Obras que, pelo sexo, pela violência, pelo horror, pela denúncia de instituições como a Igreja, exploraram os limites do que pode ser mostrado e quiseram ir aonde nenhum filme tinha ido antes.
Recuamos até aos anos 1930, em que Freaks, de Tod Browning, expõe os "monstros" para dizer que, afinal, os monstros somos nós. Mas centramo-nos nos anos 70, a década que mais convenções desafiou. E terminamos em 2003, com The Brown Bunny, filme com uma famosa cena de sexo oral não simulada que, contra todas as previsões anunciadas, não destruiu a carreira de Clöe Sevigny.
Neste episódio, os filmes de que falamos são:
Freaks, de Tod Browning (1932)
The Devils, de Ken Russell (1971)
Cães de Palha, de Sam Peckinpah (1971)
Pink Flamingos, John Waters (1972)
O Exorcista, de William Friedkin (1973)
Pretty Baby, de Louis Malle (1978)
O Bebé de Mâcon, de Peter Greenaway (1993)
Kids, de Larry Clark (1995)
The Brown Bunny, de Vincent Gallo (2003)
No episódio anterior falámos de:
O Nascimento de Uma Nação, de D. W. Griffith (1915)
Laranja Mecânica, de Stanley Kubrick (1971)
O Último Tango em Paris, de Bernardo Bertolucci (1972)
Emmanuelle, de Just Jaeckin (1975)
Saló, os 120 Dias de Sodoma, de Pier Paolo Pasolini (1975)
O Império dos Sentidos, de Nagisa Oshima (1976)
Je Vous Salue Marie, de Jean-Luc Godard (1985)
Veludo Azul, de David Lynch (1986)
A Última Tentação de Cristo, de Martin Scorsese (1988)
No Escuro é um podcast com os jornalistas Alexandra Prado Coelho e Vasco Câmara, para ouvir todas as sextas-feiras no site do jornal ou na sua plataforma preferida. A música do genérico é um trecho de The Hidden Desert, gentilmente cedido por Rodrigo Amado Quartet (Rodrigo Amado, Joe McPhee, Kent Kessler e Chris Corsano). E o nosso apelo é: #levantemoraboevaoaocinema.

A manteiga, o ovo, os “malditos”: de "O Último Tango em Paris" a "O Império dos Sentidos"
49:03

Desta vez, com "Digger", Tom Cruise estatela-se?
33:38

Entre o sexo de "... Acampamento Miasma" e a cabeça de Almodovar, preferimos o sexo
39:01