Camilo e "Memórias do Cárcere": não andávamos a precisar de um filme português assim?

 

Um produtor, Paulo Branco, um realizador, Sérgio Graciano, e um director de fotografia, João Ribeiro, inventam, em Memórias do Cárcere, uma tradição que não existe cá, que nunca existiu: a do filme de artesão.

É um pequeno apogeu de artesanato à medida de uma unidade de produção dos tempos antigos que se transcende nos décors, na direcção de actores, na fotografia — uma espectadora dizia à saída do filme: “Olha-se para o ecrã e é tudo bom”, forma mais qualitativa do que quantitativa, também menos fria e mais filosófica, de significar “valores de produção”.

Corresponde àquilo que é sempre incensado quando se trata por exemplo de cinema americano — o chamado “filme de artesão”, que faz babar, e justamente, muitos —, mas que, num sistema essencialmente autoral, que se afirmou com protótipos, como o português, acaba encarado como despromoção. Por parte de uma certa crítica. Não sendo seguro igualmente que os espectadores portugueses quebrem a sua inquebrantável desconfiança e ignorância em relação ao cinema feito em Portugal, onde, pelos vistos, o que funciona nas bilheteiras é a declinação revisteira.

Camilo (Albano Jerónimo) e a sua amada Ana Plácido (Maria João Bastos) caíram em desgraça, estão na prisão, na cadeia da Relação do Porto, acusados do crime de adultério. Isto não é revista. As imagens têm densidade e memória. Vale a pena tentar, asseguramos. Realismo e romanesco, filme de casal e história de fantasmas.

No Escuro é um podcast com os jornalistas Alexandra Prado Coelho e Vasco Câmara, para ouvir todas as sextas-feiras no site do jornal ou na sua plataforma preferida. A música do genérico é um trecho de The Hidden Desert, gentilmente cedido por Rodrigo Amado Quartet (Rodrigo Amado, Joe McPhee, Kent Kessler e Chris Corsano). E o nosso apelo é: #levantemoraboevaoaocinema.