Não têm uma história na escola, quando, no recreio, entre miúdos como vocês, alguém se atreveu com "a cena da manteiga" por causa de um filme chamado O Último Tango em Paris, título aliás que não emitia nada de lascivo?
São mais novos do que isso...
E a "cena do ovo" de O Império dos Sentidos? E Singin' in the Rain e as violações, ou a violência e uma sinfonia de Beethoven, em Laranja Mecânica, mais as longas pestanas de Alex DeLarge e um medo que fechava as portas sempre que, a partir de então, se olhava para Malcolm McDowell?
E os distúrbios na Cinemateca Portuguesa, em Lisboa, por causa da programada exibição de Je Vous Salue Marie, de Godard? Levou à mobilização de grupos católicos conservadores no edifício da Rua Barata Salgueiro, fúria liderada pelo então presidente da câmara Nuno Abecassis, pretendendo "escaqueirar" tudo se a programação fosse avante (ele que já tinha escaqueirado o clássico cinema Monumental...).
A memória também é uma construção. Mesmo quem não esteve lá, mesmo quem não tenha testado os pais com "e o que é a cena da manteiga?", herdou um património. É sobre isso este episódio de No Escuro: a forma como os "filmes escandalosos" são parte das nossas vidas, constituem-nos. Por isso a deflagração de emoções quando ouvimos o saxofone de Gato Barbieri, que assombrava o genérico, com as pinturas de Francis Bacon, n'O Último Tango... , a carícia, que é a voz de Pierre Bachelet, no tema de Emmanuelle ou a insinuante melodia de Blue Velvet que Bobby Vinton transforma em garrote.
Foi com essas conquistas do cinema sobre os limites do que podia ser mostrado que nos tornámos novos espectadores. O "escândalo" é como o ginásio: provoca dores, rasga, e por isso o músculo cresce. Evocações deliciosas que raiam o mito: atravessava-se a fronteira para ir a França ver um filme, O Último Tango..., porque a censura, em Portugal ou em Espanha, não autorizara a estreia.
A matéria é vasta. Até porque os escândalos se reeditam: se a manteiga é velha, recente é a "descoberta" de que a actriz Maria Schneider não sabia que com ela iria ser barrada por Marlon Brando na sequência da violação, o que tornou O Último Tango em Paris, de novo, um símbolo. De sinal contrário, desta vez, ao da liberdade ou da quebra de tabus. Questiona-se agora os limites da criação: até onde pode ir um filme?
Dedicaremos duas jornadas ao assunto. Neste episódio evocamos:
O Nascimento de uma Nação, de D. W. Griffith (1915)
Laranja Mecânica, de Stanley Kubrick (1971)
O Último Tango em Paris, de Bernardo Bertolucci (1972)
Emmanuelle, de Just Jaeckin (1975)
Saló, os 120 Dias de Sodoma, de Pier Paolo Pasolini (1975)
O Império dos Sentidos, de Nagisa Oshima (1976)
Je Vous Salue Marie, de Jean Luc Godard (1985)
Veludo Azul, de David Lynch (1986)
A Última Tentação de Cristo, de Martin Scorsese (1988)
No Escuro é um podcast com os jornalistas Alexandra Prado Coelho e Vasco Câmara, para ouvir todas as sextas-feiras no site do jornal ou na sua plataforma preferida. A música do genérico é um trecho de The Hidden Desert, gentilmente cedido por Rodrigo Amado Quartet (Rodrigo Amado, Joe McPhee, Kent Kessler e Chris Corsano). E o nosso apelo é: #levantemoraboevaoaocinema.

Desta vez, com "Digger", Tom Cruise estatela-se?
33:38

Entre o sexo de "... Acampamento Miasma" e a cabeça de Almodovar, preferimos o sexo
39:01

No Escuro com a controvérsia de 2026, NAZA, denúncia da máquina de morte israelita
46:51