Neste episódio, Lourenço Pereira Coutinho e Margarida Magalhães Ramalho conversam com a professora e investigadora Manuela Niza, autora do livro “Terra de Ninguém”, sobre os caminhos do contrabando na raia portuguesa. Perdida a sua razão de existência com a abertura das fronteiras, em 1995, o contrabando foi, durante séculos, uma forma de subsistir em terras madrastas onde baixos salários e uma agricultura pobre levavam famílias inteiras a enfrentar de noite caminhos ínvios, intempéries e a Guarda Fiscal que, de bastão sempre pronto, podia vergastar aqueles, novos ou velhos que conseguisse apanhar. Para além de transportarem mercadorias, nos dois sentidos da fronteira, os contrabandistas e os seus trilhos auxiliaram muita gente nos seus caminhos de fuga: republicanos que tentavam escapar à sanha franquista, refugiados europeus que fugiam ao nazismo e, no sentido inverso, a emigração clandestina e exilados políticos. Como se sabe, a partir dos anos 50 intensificou-se um fluxo migratório das aldeias do interior em direção a França, Alemanha e Luxemburgo. O começo da Guerra Colonial e o endurecimento do regime, na década seguinte, também fariam sair do país muita gente, sobretudo jovens que se recusavam a combater em África. Tanto uns como os outros usariam os caminhos e as “manhas” dos contrabandistas. Mais de trinta anos passados sobre o fim do contrabando, as suas rotas e as suas aventuras tornaram-se, em muitos municípios da raia, atração turística através da oferta (de Norte a Sul do país) de Rotas dos Contrabandistas ou espaços museológicos. Pese embora as diversas motivações de quem escolheu viver com um pé fora da lei, a história do contrabando é um dos aspectos mais evidentes da história lunar do país que, ainda hoje, não conseguiu inverter as assimetrias entre o Interior e o Litoral.

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