Em 2022, Ana Rocha de Sousa viu uma activista ucraniana exibir no corpo a frase Stop Raping Us. A imagem ficou com ela. Actriz, argumentista e realizadora, acaba de estrear Asas (nas salas portuguesas a partir de Janeiro de 2027), a sua segunda longa-metragem, inspirada na história real de uma família de mulheres ucranianas obrigada a fugir da guerra e a procurar refúgio em Portugal. “O contexto destas mulheres e desta família é a guerra, mas o filme fala também das guerras internas de cada uma delas”, conta.
A palavra que atravessa este episódio do podcast Um Género de Conversa, com Ana Rocha de Sousa, é indignação. Foi ela que esteve na origem de Listen, a sua primeira longa-metragem, e que volta a estar presente em Asas. Aos 47 anos, a realizadora admite que viver permanentemente nesse estado tem um preço. “A indignação pesa-me. Pesa-me verdadeiramente. Muitas vezes fiquei na frente de batalha sozinha e depois sofri as consequências sozinha.”
Em Asas, as mulheres e as crianças podem conseguir afastar-se da linha da frente de uma guerra, mas isso não significa que escapem à guerra. Ao filmar na Ucrânia, a realizadora confrontou-se com a dimensão dos massacres e da violência sexual sofrida por mulheres ucranianas, mas decidiu não mostrar explicitamente esse horror.
“Acho que o horror também tem um limite para se dar voz. Eu quis que o horror tivesse espaço para existir, porque ele existe, mas era-me profundamente desconfortável fazer um filme de horror.” Depois de Listen, queria que o novo filme pudesse deixar outra coisa além da desesperança. “Era importante para mim que, além das perguntas que ficam no ar, encontrasse um caminho, uma luz qualquer.”
Asas é também um filme sobre desenraizamento e pertença. Uma experiência que Ana Rocha de Sousa conhece, já que viveu em Inglaterra e recorda ter sentido muitas vezes a divisão entre o “nós e eles”. Hoje considera essa experiência determinante para a forma como olha para os outros. “Ser estrangeiro numa terra é uma experiência muito importante na vida. Foi muito importante para fazer crescer em mim grande parte da empatia que tenho hoje.”
A realidade é o ponto de partida dos dois filmes. Ana Rocha de Sousa procura histórias, investiga, cruza acontecimentos, mas não os reproduz literalmente. “Nunca me sinto à vontade para inventar. As histórias que conto não são um decalque da realidade, são inspiradas na realidade e depois transformadas. Eu caso factos e é nisso que me sinto confortável.”
O seu é um cinema inevitavelmente político, embora a realizadora hesite perante a classificação. Diz que os filmes nascem menos de uma intenção política programada do que de uma forma de “ser, existir e respirar”. Em paralelo a Asas, Ana Rocha de Sousa filmou um documentário sobre a fadista Carminho e a tournée no Japão cuja exibição também está programada para breve.
Quando realizou Listen, acreditava que o filme poderia contribuir para mudar a legislação britânica relativa à retirada de crianças às famílias. O filme chegou a ser usado numa defesa em tribunal e esteve associado à mobilização pública no Reino Unido. Ainda assim, reconhece que esperava mais do impacto social do cinema.
A indignação reaparece quando a conversa chega à prescrição dos crimes de abuso sexual. Para Ana Rocha de Sousa, a lei não pode ignorar o conhecimento existente sobre os mecanismos do trauma. “As pessoas levam décadas a perceber o que viveram naquele momento traumático. Não podemos estar a prescrever antes de existir sequer essa percepção.”

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