Durante quase trinta anos, vivemos como se a inflação fosse uma doença erradicada num passado distante. Os economistas chamaram “Grande Moderação” a estas décadas de preços controlados e atribuíram o mérito à independência dos bancos centrais ou à introdução do euro. Depois vieram a pandemia, a guerra na Ucrânia, as cadeias de produção interrompidas e o aumento do preço da energia. Quando tudo parecia estabilizar, Trump resolveu atacar o Irão e, de um momento para o outro, 20% da produção mundial de petróleo deixou de circular. A doença que julgávamos enterrada está de volta. Estaremos apenas a viver uma sucessão de choques excecionais, ou entrámos numa era de instabilidade estrutural, em que os preços voltam a ser uma ameaça permanente? Os bancos centrais, ao responderem com a receita de sempre — subir os juros —, estarão a aplicar o remédio certo à doença errada? E se os próprios números com que medimos o custo de vida deixarem de fora aquilo que mais pesa na vida das pessoas, como a habitação? Num tempo em que as estatísticas nos falam de pleno emprego e crescimento, mas as pessoas sentem que a vida piora, não estará esse descontentamento a nascer de uma sufocante degradação do poder de compra causada por uma inflação silenciosa e ausente dos números? O convidado desta edição é Vicente Ferreira. Economista, doutorado pela Universidade Sapienza de Roma, com passagem pela Universidade de Londres e pelo ISEG onde recebeu os prémios do Banco de Portugal e da Caixa Geral de Depósitos para o melhor aluno da licenciatura em Economia e onde hoje ensina Macroeconomia e História do Pensamento Económico. Se o quiserem ler, escreve sobre estes temas no canal "Reverso da Moeda".

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