A notícia, dada pelo presidente Donald Trump, correu o mundo, por uma razão fácil de entender: um encontro diplomático entre representantes do Líbano e de Israel estava anunciado, pondo termo a um período de 34 anos sem conversações entre os dois países. Ainda é cedo para se acreditar que o encontro vai servir de base a um acordo entre as partes, ou até a um cessar-fogo. Porque o que separa o Líbano de Israel é mais do que um desaguisado entre dois países: é um conflito onde aparece uma milícia financiada pelo Irão, o Hezbollah, que usa o território libanês para atacar Israel e que serve de argumento para que Telavive continue a destruir não apenas supostas bases terroristas nesse território, como a bombardear e a matar civis na capital libanesa, Beirute.
O Líbano é uma vítima clássica da geografia. Durante séculos, foi lugar de refúgio de muçulmanos sunitas, xiitas ou drusos, mas também de cristãos maronitas. Se em tempos remotos a coexistência entre estas comunidades foi pacífica e permitiu ao Líbano ser um oásis numa zona conturbada – o tempo em que o país era a Suíça do médio oriente e a sua capital uma espécie de Paris na orla este do Mediterrâneo, as tensões geopolíticas contemporâneas da região levaram o pesadelo para o interior das suas fronteiras. Uma guerra civil entre essas comunidades que se prolongou entre 1975 e 1990 causou a morte de pelo menos 120 mil pessoas.
O país recuperou a paz através de um acordo ardiloso. Os cargos sensíveis do estado são divididos entre as suas 18 seitas reconhecidas, o presidente é um cristão maronita, o primeiro-ministro um sunita e o chefe do parlamento um xiita. Mas esse acordo não contemplou o desarmamento do Hezbollah. Sendo uma milícia manobrada pelo Irão, cuja existência se justifica num plano de hostilidade permanente contra Israel, sempre que há um conflito ou uma ameaça de conflito na região, o Líbano torna-se um alvo. E os libaneses vítimas permanentes da instabilidade política – ou no caso presente, da infâmia de um bárbaro como Netanyahu. Na semana passada, um bombardeamento a uma zona civil de Beirute causou 200 mortos. Um deputado italiano expressou de forma evidente, entre críticas a Giorgia Meloni, a rejeição internacional a este acto bárbaro.
A família de Safaa Dib é o exemplo perfeito das tormentas do seu país de origem. Na guerra civil, o pai emigrou para os Emirados Árabes Unidos, onde conheceu um português. Em 1985, o senhor Dib decidiu resgatar a família e emigrou para Portugal. Safaa Dib veio para Lisboa com dois anos estudou Literatura na Universidade de Lisboa, foi editora e tornou-se uma figura grada do partido Livre na capital. No ano passado, publicou o livro Líbano, uma Biografia, na qual reflecte o destino trágico do seu país e o percurso da sua família. É um livro extraordinário, que cruza a memória histórica com a experiência pessoal. Safaa Dib é hoje a nossa convidada.

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