O filósofo António de Castro Caeiro propõe-nos pensar o assombro como uma sensação de estranheza e inospitalidade perante a perda de objetos ou de pessoas, atitudes inesperadas, mudanças súbitas no familiar ou situações como a doença na infância e as despedidas. É o insólito que irrompe no quotidiano, tornando o conhecido desconhecido e provocando a perceção de que tudo mudou.
Desde cedo, experiências radicais (como a morte, a separação ou a ausência) revelam a vulnerabilidade do tempo e do ser: “A morte apresenta-se como um agente patológico”, e o assombro nasce desse confronto com o outro, com o inesperado e com a transformação. Leva à consciência da passagem do tempo, da sua escassez e da esperança que pode emergir após longos períodos de letargia. No fundo de todas as coisas, o assombro é o surgimento do ser, a revelação da vida no próprio ato de resistir ao desaparecimento.
A inquietação perante o desconhecido e o desconforto quando este se manifesta retiram o véu da nossa vulnerabilidade e finitude. “E, no assombro, pode parecer que estamos sempre expostos a coisas diferentes, quando podemos estar sempre expostos à mesma coisa.” Nesta jornada filosófica, António de Castro Caeiro leva-nos não apenas pela epistemologia e pela etimologia do assombro, mas também pela realidade intangível com que todos nos deparamos na vida quotidiana, muitas vezes sem disso nos apercebermos.

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