Desde miúdo que João Goulão queria ser médico. Médico como o tio, um verdadeiro João Semana em Idanha-a-Nova, daqueles médicos que tanto arrancava dentes como fazia partos, e que o influenciou de tal maneira que aos cinco, seis anos já andava com uma caixinha de primeiros socorros quando ia jogar à bola com os amigos. Mas o que não sabia então era que a vida o ia levar pelo caminho das drogas – no melhor dos sentidos —, dedicando a sua carreira à prevenção e tratamento de dependências, sendo um dos principais autores da lei portuguesa da descriminalização do consumo, louvada e replicada internacionalmente.
Durante quase três décadas foi Coordenador Nacional do Combate à Droga, presidiu ao Conselho de Administração do Instituto da Droga e da Toxicodependência (IDT), foi director-geral do Serviço de Intervenção nos Comportamentos Aditivos e nas Dependências (SICAD), sob a alçada de mais de dez governos de diferentes quadrantes políticos, o que prova que se podem fazer birras sem chegar a um ponto de ruptura.
Pai de quatro filhos, e já avô, o nosso convidado deste episódio especial do Birras fala do passado e do presente dos consumos em Portugal, do papel das comissões de dissuasão na prevenção das dependências, mas também dos seus receios para o futuro — o isolamento dos jovens e a dificuldade que sentem nos relacionamentos sociais podem levar a um enorme sofrimento, terreno propício para que o procuremos esquecer através de substâncias ou comportamentos que a princípio aliviam, mas depressa escravizam.
Como podemos proteger os nossos filhos e netos? João Goulão acredita que protegeu os seus por falar abertamente de tudo isto. E escutar sem julgamento, qualidade que a avó destas Birras confessa ainda estar muito longe de possuir — mas com bons exemplos como este, talvez esteja um bocadinho mais perto de o conseguir.

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