Catarina Oliveira tinha 26 anos quando uma infecção na medula mudou a sua vida. Estava no Rio de Janeiro e disseram-lhe que nunca mais poderia andar. Regressou a casa a Portugal, mas esperava-a uma nova realidade sobre rodas. Diz ter lidado bem com a situação, apesar de o olhar dos outros a fazer sentir-se uma espécie rara sobre rodas (nome que usa nas redes sociais). É nutricionista, mas o capacitismo da sociedade foi o ímpeto para passar a falar de deficiência sem tabus, como palestrante ou nas redes sociais, onde tem 100 mil seguidores.
Em entrevista ao podcast A Vida Não é Que Aparece recorda como a adaptação à cadeira de rodas foi mais difícil pela forma como a sociedade não está preparada para a “receber numa nova posição”. E lamenta: “Efectivamente parece que tenho de me afirmar mais porque estou numa cadeira de rodas”. Aliás, sentiu-se “invisível ou então infantilizada em muitas situações”.
Isto porque o capacitismo “faz com que nós, à partida, assumamos a incapacidade”, como se a pessoa com deficiência precisasse da nossa ajuda. “Esquecemo-nos da autonomia daquela pessoa, da individualidade daquela pessoa e do direito de resposta daquela pessoa”, argumenta, sem condenar quem oferece ajuda. “O problema é quando digo não e começam a dizer ‘deixe estar que eu ajude na mesma’. E começam-me a empurrar a cadeira”, exemplifica.
Garante que não rejeita ajuda para provar que é capaz de fazer o que quer que seja, mas porque tem mesmo autonomia na maioria das tarefas. “Acontece muitas vezes com a deficiência: assumir a incapacidade e não a potencialidade das pessoas”, declara. É por isso que fala de equidade em vez de igualdade. “A equidade é percebermos que as pessoas são diferentes e que precisam de recursos diferentes para chegar ao mesmo sítio”.
O capacitismo da sociedade também é culpa da educação e, por isso, lembra aos pais que o exemplo é a melhor forma de ensinar. “Não adianta nada estar a dizer ‘olha temos de tratar muito bem as pessoas com deficiência’, a seguir vão ao supermercado e param no lugar da pessoa com deficiência durante cinco minutos”, exemplifica Catarina Oliveira, que foi mãe há menos de um ano e também tem vindo a desconstruir estereótipos à volta deste tema. “Ser mulher com deficiência e mãe, bem como o facto de estar a cuidar de um ser humano, é uma coisa que a sociedade não está à espera”.

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