Já passaram mais de 20 anos desde que Marta Crawford entrou na casa dos portugueses, em horário nobre, para falar de temas que faziam corar muita gente — e que talvez ainda hoje deixem alguns desconfortáveis. As redes sociais ainda não faziam parte do nosso dia-a-dia, e ver uma mulher em directo na televisão a responder, com naturalidade, a perguntas sobre sexo oral, métodos contraceptivos ou disfunção eréctil tinha tudo para ser um escândalo. Mas a sexóloga conseguiu fazê-lo como poucos: com boa disposição e seriedade, tal como se apresentou neste episódio do podcast Um Género de Conversa.
Psicóloga e terapeuta familiar, conhece como poucos os medos, os preconceitos e a falta de literacia que ainda rodeiam a sexualidade, mesmo nas gerações mais novas. “Ainda há muito pudor quanto ao prazer, independentemente da idade. Mesmo os jovens, que imaginamos que têm mais liberdade e acesso à informação, às vezes têm uma mentalidade mais retrógrada do que a minha avó. Aceitar fazer sexo sem vontade é um exemplo, como se fosse uma função da relação”, conta Marta Crawford.
Nestes 50 minutos de conversa, a especialista explica que ainda há uma necessidade de corresponder a um padrão masculino em que “o prazer está centrado na penetração, num vai e vem que dá a maior das satisfações sexuais às mulheres”. Porém, desconstrói esse mito: “Não é de todo assim, o clítoris é que é uma super-heroína, tem mais de 10 mil terminações nervosas. Deve fazer parte de todo o jogo erótico e sexual, e não é um jeitinho que se dá, porque a mulher, coitadinha, precisa. É porque é uma fonte fundamental de prazer feminino.”
A sexóloga aborda também alguns dos principais desafios do presente, desde “os problemas de performance” provocados pela pornografia, “que é a nova educação sexual”, até uma generalizada “crise profunda” da intimidade: “Essa partilha, essa honestidade estão cada vez mais difíceis. Os casais não conseguem comunicar.”
Já sobre a pressão que ainda recai em tantas mulheres para voltarem à actividade sexual após o nascimento de um bebé, tantas vezes alimentada também pelos próprios profissionais de saúde, Marta Crawford é peremptória: “Dizer a alguém ‘tem de ir ao castigo’ é uma violência. Sexo sem disponibilidade mental não faz sentido”, frisa a sexóloga. “Em encontros com ginecologistas e obstetras, digo muitas vezes: ‘Vocês são responsáveis pela consulta após um mês do parto e por dizerem 'agora já podem ter sexo. E essa é a pior mensagem que podem passar. Digam antes: faça-o apenas quando se sentir preparada e comece com calma, nada muito exigente sexualmente’.”

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