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Rodrigo Cardoso: “Eu e os meus irmãos fomos alvos de uma intervenção da CPCJ. Tinha 9, 10 anos. A educação era o único meio onde podia refugiar-me das minhas circunstâncias”

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Nascido e criado na Buraca, Rodrigo Cardoso, o convidado deste episódio d’ “O Tal Podcast”, cresceu num contexto familiar que desde cedo o levou a procurar na educação um espaço de refúgio e de possibilidade. Bolseiro de mérito, concluiu o ensino secundário com 19 valores, a licenciatura com 18, e agora prepara-se para tirar um mestrado em Jornalismo e Relações Internacionais na Sciences Po Paris, uma das mais prestigiadas instituições de ensino superior do mundo.

Rodrigo Cardoso tem apenas 21 anos, mas já traz consigo uma história recheada de desafios, conquistas e experiências que o fizeram questionar a ideia de que o mérito, por si só, é suficiente para abrir portas.

Ainda criança, foi acompanhado pela Comissão de Proteção de Crianças e Jovens (CPCJ), num período particularmente desafiante para a família. Fala da mãe com enorme orgulho e reconhece nela o seu maior exemplo de resiliência: uma mulher que conseguiu ultrapassar as dificuldades que enfrentou, recuperar a tutela dos filhos e reconstruir a própria vida.

Foi também na escola que Rodrigo encontrou algumas das pessoas que mais contribuíram para o seu percurso. Duas professoras do primeiro ciclo foram fundamentais para lhe reconhecerem as capacidades e lhe mostrarem, desde cedo, que era um bom aluno. Mais do que o impacto no desempenho escolar, tiveram um papel determinante na construção da sua autoconfiança, dando-lhe a segurança necessária para acreditar que poderia ir mais longe e abrir caminho para outras possibilidades. “Foram as minhas professoras que me deram este boost de confiança e de aposta em mim próprio”, recorda.

Hoje, com uma licenciatura concluída com uma média de 18 valores, a passagem por mais de 30 países e experiências em importantes fóruns internacionais, como as Nações Unidas, Rodrigo continua a questionar a ideia de que todos partimos do mesmo lugar. É crítico da narrativa da meritocracia e defende a importância do Estado Social e das políticas públicas na criação de oportunidades. “Não nascemos nas mesmas circunstâncias. Isso é um facto, não somos iguais.”

Quando percebeu que não teria acesso à bolsa de estudo que esperava para prosseguir os estudos em Paris, Rodrigo recorreu a um crowdfunding. Em apenas 24 horas, conseguiu reunir os 14 mil euros de que precisava para financiar o mestrado, numa experiência que reforçou a sua convicção na importância da solidariedade e da responsabilidade coletiva. Também as bolsas de mérito que recebeu ao longo do percurso, nomeadamente da Fundação Calouste Gulbenkian, foram determinantes para chegar a lugares que, de outra forma, seriam difíceis de alcançar.

Olha para o seu futuro com vontade de contar histórias. Quer produzir documentários, explorar a relação entre as gerações diaspóricas, as suas raízes e a arte, e trabalhar mais próximo das pessoas e das comunidades. “O meu lugar no mundo, neste momento, é transformar a minha história, aquilo que sei e tudo aquilo por que passei, numa espécie de nova chave que possa abrir mais portas.”

Neste episódio de “O Tal Podcast”, Rodrigo fala também sobre a pressão que sente em contextos de grande exposição, como a ONU, sobre a dificuldade em aceder a apoio psicológico e sobre a relação da sua geração com o telemóvel.

Partilha ainda uma experiência de saúde que viveu no Brasil, onde uma situação de urgência acabou por exigir uma intervenção cirúrgica, e explica por que decidiu tornar público um episódio sobre o qual, considera, ainda se fala pouco.

Ouça aqui a conversa com Georgina Angélica e Paula Cardoso.

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