Saiu de casa dos pais ainda criança, para estudar numa cidade maior, onde morou com os tios até começar a viver sozinho, quando tinha apenas 14 anos. Hoje com cinco décadas de história, Rodrigo Saturnino, ou simplesmente ROD, conta, neste episódio de O Tal Podcast, como os seus primeiros anos de vida se inscrevem numa trajetória “mais comum do que parece”. Mas se o passado do pesquisador e artista visual encontra eco noutras narrativas oriundas do interior do Brasil, o presente solta-se de expetativas alheias, e o futuro apresenta-se ainda mais livre. Assumidamente queer.
A história de vida de Rodrigo Saturno começou a cerca de 7.600 quilómetros de Lisboa, na pequena localidade de Jequitibá, localizada no estado brasileiro de Minas Gerais.
Desde 2007 em Portugal, o convidado de Georgina Angélica e Paula Cardoso soma cerca de 16 anos de academia portuguesa – entre estudos de mestrado, doutoramento e pós-doutoramento –, percurso marcado por várias investigações sobre o mundo digital.
É a partir dele que conserva, há quase duas décadas, os afetos familiares, ainda hoje fortemente enraizados na sua terra de nascimento, que descreve, afetuosamente, como uma “cidadezinha minúscula”.
“Jequi, como a gente fala, tem 5 mil habitantes”, aponta o pesquisador e artista visual, precocemente habituado a gerir distâncias: “O meu senso de independência foi muito prematuro”.
Desde os 10 anos longe da casa dos pais, de onde se mudou para morar com os tios e “poder receber melhor educação”, o cofundador do Coletivo Afrontosas e da União Negras das Artes, revela que embora tenha começado a desbravar caminho sozinho muito cedo, contou sempre com a supervisão parental.
Além de revisitar, com assumido orgulho, algumas das principais etapas do seu percurso – onde se inclui a criação de uma faixa com a polémica frase “Não foi descobrimento, foi matança” –, ROD aborda, nesta conversa, como está a lidar com o avançar da idade.
“Todo o mundo fala ‘você não parece que tem 50’. Aí pergunto: o que é parecer ter 50 anos? Ser velho, barrigudo, que desistiu da vida, entregou tudo?”.
Contrariando eventuais expetativas, o convidado deste episódio de O Tal Podcast adianta que, nesta fase, se sente “mais livre” de qualquer pressão para encaixar dentro dos comportamentos associados à idade.
Talvez resida aí um jeito queer de ser e de estar?
“O queer tem essa característica de ser diferente. É outra coisa, outro universo, outra leitura do mundo. É outra explicação das coisas”, defende, perentório na antevisão de que “o futuro é queer”.
Em que sentido?
“Queer é esse confronto, esse contraste, essa luta sem fim, essa tentativa de desencaixar de expectativas, de ter 50 anos, mas parecer ter 20”, explica, sem nunca perder de vista as múltiplas camadas que o atravessam.
Das provações da imigração, que põem em choque processos de integração e assimilação, passando pelas expressões de racismo na academia, nos algoritmos e outras tecnologias, a conversa termina com um breve olhar sobre as lições que ficam de um passado de estudos religiosos.
“Tenho aprendido que a espiritualidade não tem que ser doutrina, não tem que ser litúrgica. Mas tem que existir nessa relação com o mundo invisível”.
Ouça aqui a conversa completa.

Carlos Lopes: “É um orgulho tremendo ter amigos há quase 50 anos. Há um núcleo muito forte de partilha, amor, irmandade”
1:01:18

Margarida Valença: “Vivemos num mundo que valoriza as grandes figuras, os grandes eventos. A História é feita das pequenas estórias do dia-a-dia, e das pessoas que são completamente invisíveis no espaço público”
55:15

Silvania de Barros: “Trabalhar o silêncio e a solitude é ótimo. Mas no início fiquei a pensar: será que me estou a esconder de algo? Somos ensinados a estar sempre com pessoas”
58:39