Doutorada em Psicologia Social, investigadora associada do CESA - Centro de Estudos sobre África e Desenvolvimento, e professora universitária, Iolanda Évora é a convidada deste episódio d’ O Tal Podcast. Nascida em Moçambique, viveu a independência do país, passou pelo Brasil recém-saído da ditadura militar e integrou um programa de reforma administrativa em Cabo Verde, país das suas raízes familiares. Nesta conversa, revisita esse percurso e explica como influenciou o seu olhar sobre a sociedade.
As pessoas estão no centro da forma como Iolanda Évora pensa o mundo. Nesta conversa, a psicóloga social regressa várias vezes à importância das relações, da interação e do coletivo na construção da identidade. "Para você se identificar como um indivíduo, passa por esse reconhecimento coletivo", afirma. "A gente precisa ter mais consciência daquele ir e voltar. Ir e individualizar, mas individualizar coisas que partilhamos com os outros."
A economia solidária também faz parte do seu percurso académico, a partir de uma tese de mestrado sobre cooperativismo, que a levou a estudar modelos de organização assentes na cooperação e na partilha, um interesse que mantém até hoje através da ligação ao Instituto Paul Singer, no Brasil.
Ao longo do episódio, Iolanda Évora revisita ainda o debate sobre identidade, racismo e imigração, questionando a forma como essas discussões têm sido conduzidas. "Estão sempre a pedir-nos para descrever o que é ser negro, o que é ser imigrante", observa, defendendo que continua por conhecer o outro lado da discussão, referindo-se às conversas que acontecem entre quem ocupa posições historicamente dominantes, raramente presentes no espaço público. "Eu quero saber qual é essa conversa", reitera a investigadora, acrescentando: "Sei que há famílias [brancas] que vivem um grande desconforto quando se encontram, precisamente porque não concordam entre si. Não sei qual é a conversa que acontece ali."
A investigadora partilha ainda a sua frustração com a pressão por resultados rápidos na academia, e defende uma investigação capaz de acompanhar a complexidade dos fenómenos sociais. Explica por que privilegia metodologias qualitativas, que permitem compreender a dinâmica dos processos para lá de um simples retrato da realidade. "A pesquisa quantitativa dá-te uma fotografia daquele momento. Mas, se tu queres entender como é que o processo funciona, dificilmente consegues isso com métodos quantitativos."
A reflexão passa igualmente pela importância de se recuperar a humildade intelectual. "Estamos cheios de verdades", observa, perante um espaço público e académico onde considera existir demasiada pressa para chegar a conclusões.
Ouça aqui a conversa completa, com Georgina Angélica e Paula Cardoso.

Alexandre Teixeira: “Alguém que paga 6 mil euros a um traficante de pessoas para vir para a Europa, se tivesse um processo migratório regulado, não teria de passar por tantas dificuldades”
57:32

Miguel Sambé: “Desacelerar não é importante apenas para o planeta; é também importante para nós, enquanto seres humanos. É por isso que gosto tanto desta frase: 'Sou ser humano, mas não sei ser humano'”
58:21

Virgílio Varela: "Precisamos de resgatar o que hoje estou a chamar de soberania da imaginação. Quando não a temos, somos facilmente enganados, colonizados"
57:37