Presença confirmada no programa europeu de talentos "Shooting Stars" – que vai decorrer durante o 76.º Festival de Cinema de Berlim, de 12 a 22 de fevereiro –, Cleo Diára continua a firmar créditos internacionais, depois de vencer o prémio de melhor atriz na secção Un Certain Regard, do Festival de Cannes, pela interpretação em "O Riso e a Faca", de Pedro Pinho. Neste episódio de “O Tal Podcast”, a também encenadora revisita as emoções de Cannes, recorda a infância em Cabo Verde, partilha as primeiras impressões sobre Portugal, e a inesperada trajetória artística, trilhada depois de uma passagem pelo ISCTE - Instituto Universitário de Lisboa.
É aos primeiros anos de vida, em Cabo Verde, que Cleo vai buscar o fascínio por enredos que lhe aguçam a criatividade. “Quando me contam histórias, começo a imaginar, fico a criar as minhas imagens”, revela a atriz que, na infância, em casa da avó materna, descobriu a magia dos contos populares.
Hoje com 38 anos, e desde os 10 em Portugal, a atriz conta, nesta conversa com Georgina Angélica e Paula Cardoso, que o encanto pelos universos narrativos se mantém.
“Não é a importância de estar num palco ou filme que me move, mas como posso honrar as histórias que conto, que esperanças posso brotar”.
Formada na Escola Superior de Teatro e Cinema (ESTC), Cleo ainda ensaiou uma temporada de estudos no ISCTE - Instituto Universitário de Lisboa.
“Ser atriz era uma vontade que toda a gente sabia que eu tinha, mas que continuava a ser recalcada”, partilha, lembrando que, quando anunciou que pensava candidatar-se à ESTC, ouviu de toda a gente um sonoro: “Não vais entrar”.
Cleo tinha 23 anos, nenhuma referência artística na família, e pouca exposição à dramaturgia. “Os primeiros tempos na ESTC foram duros. Não andei, tive de correr, de dar saltos”.
Ao revisitar o percurso, já consagrado com o prémio de melhor atriz na secção Un Certain Regard, do Festival de Cannes – pela interpretação em "O Riso e a Faca", de Pedro Pinho –, a convidada deste episódio de “O Tal Podcast” faz questão de partilhar o palco.
“O Mário Coelho foi super importante, porque eu estava a lidar com as inseguranças de não ter vindo de uma família artista, de não saber as coisas. E ele dizia: tu sabes o que sabes, tens a tua cultura, as outras pessoas têm a delas”.
Tal como o amigo e encenador Mário, Nádia Yracema e Isabél Zuaa, amigas e parceiras no coletivo “Aurora Negra”, compõem o elenco de protagonismos da história de Cleo, reconfigurada a partir do encontro com as duas atrizes.
“Estávamos a desenvolver o guião, a estrutura do espetáculo [Aurora Negra], e a falar sobre a nossa ancestralidade. E elas iam falando dos povos de onde vinham, tanto da Guiné quanto de Angola. Eu não tinha para onde ir além de saber que era cabo-verdiana. Então decidi investigar a minha família, encontrar os apelidos dos meus avós e bisavós”.
Dessa busca surgiu a identidade Diára, nome que emprestou à personagem que viveu em "O Riso e a Faca”, e com o qual homenageia a sua africanidade, indissociável do exemplo da bisavó Ana.
É com ela nos pensamentos que afirma: “Digo a mim mesma ‘tu és uma reparação histórica’. Porque havia momentos em que os nossos não podiam entrar pela porta da frente, quanto mais sentar à mesa”.
Ouça aqui a conversa com Georgina Angélica e Paula Cardoso.

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