Há quem descubra na língua portuguesa recursos insuspeitados. Os manifestantes pela habitação, obrigados a desistir das tendas, passaram a dormir ao relento no Rossio, em conchinha. Inventaram a «aconchada». A polícia, que no Porto tinha sido implacável, também mudou de atitude; e o ministro da Administração Interna lembrou que a lei é para cumprir, o que é sempre uma boa notícia vinda de quem tutela as polícias.
No Parlamento, o Chega descobriu entretanto que afinal já não gosta assim tanto da lei das rendas que ajudou a aprovar, e ameaça rasgar o acordo com o PSD. Chama-se a isto marcha-atrás, e o condutor já tem prática. Pela Europa fora, de França à Albânia, houve quem partisse montras com um entusiasmo que, embora em Outubro, fez lembrar outros Maios. No Brasil, a contagem decrescente para a segunda volta trouxe um debate sem moderador em que Bolsonaro atribuiu a Lula os votos de todos os presos, pai incluído. Por cá, Manuel Pinho saiu em liberdade sem ter entrado na cadeia; cinco anos em casa, boa parte deles penosos: sem acesso à garrafeira.



