“Andei descalço quase sempre em criança.” É assim, sem rodeios, que Zé Amaro resume uma infância vivida entre a pobreza rural de Citânia de Briteiros, o peso da lenha carregada ao monte antes da escola e o sonho impossível de um miúdo que nunca comeu um iogurte mas ouvia música escondido numa sala. Sétimo de dez irmãos, filho de um pai de olhar terno e uma mãe de mão de ferro, cresceu a trocar os brinquedos pelo trabalho, os cadernos pela sobrevivência. Aos 13 anos entrou numa fábrica de calçado. Aos 15 já subia a palcos. Aos 30 apostou tudo na música. E quando finalmente tinha o mundo a seus pés, um medicamento destruiu-lhe o fígado e colocou-o a dias de morrer. Foi um transplante — e um dador anónimo — que lhe devolveu a vida. Hoje, chapéu na cabeça e botas nos pés, Zé Amaro sobe ao palco e chora por dentro. Sabe, melhor do que ninguém, o que custou chegar ali.

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