Abel começou a apostar em resultados de jogos de futebol de forma absolutamente banal: aproveitou um bónus de boas-vindas de uma casa de apostas e apostou numa brincadeira entre amigos. A coisa correu bem. A certa altura, houve uma “fezada”. Uma sorte de principiante que deu um prémio avultado.
Normalmente, é assim que tudo começa. O ganho fica gravado no cérebro: nunca mais é esquecido.
A partir daí, para alguns, as apostas deixam de ser só lazer. Depois dos ganhos, vêm as perdas. O jogador passa a apostar para recuperar, para resolver os problemas que o próprio jogo criou.
As histórias dos jogadores patológicas são normalmente muito parecidas. Mas há um factor menos conhecido neste percurso: o papel das casas de apostas na perda do controlo.
Em Portugal, o jogo online é um mercado regulado. A lei obriga os operadores a promover o jogo responsável e a sinalizar comportamentos de risco. Mas os relatos mostram outro padrão: quando os gastos disparam, nem sempre surgem travões. Às vezes, surgem incentivos.
Estatutos VIP, gestores de conta, convites para camarotes, cabazes, dispositivos electrónicos. E sobretudo bónus.
Como em qualquer sector comercial, é normal que existam estratégias de fidelização. Nos casinos físicos, o tratamento personalizado é uma prática comum. Isso não é um problema quando estamos a falar de clientes com comportamentos de jogo saudáveis.
Mas, segundo os jogadores que ouvimos, por vezes estes incentivos aparecem nos momentos mais frágeis: depois de perdas grandes, durante pausas por exaustão, ou quando já não há mais dinheiro para jogar.
O que acontece, então, quando este tipo de estratégias é aplicado a pessoas que já estão a jogar compulsivamente?
Neste episódio do podcast Como Assim, falamos com a psiquiatra Inês Homem de Melo, o jurista Luís Pisco, da Deco, com o advogado Filipe Mayer sobre os limites da lei, sobre o que é obrigatório e o que fica em zonas cinzentas. Ouvimos também a APAJO, a associação que reúne alguns dos operadores licenciados em Portugal.
Mas há um mercado onde nada disto se aplica: o mercado ilegal do jogo online. Plataformas sem licença, sem deveres de protecção ao jogador, onde a auto-exclusão é dificultada e o contacto é constante. Segundo os jogadores que ouvimos, é muitas vezes depois de sair do mercado legal que os jogadores passam a ser abordados por estes sites.
É aqui que entram os influencers. Ex‑participantes de reality shows, criadores de conteúdos e figuras com grande alcance nas redes sociais continuam a promover estes casinos ilegais, muitas vezes de forma dissimulada, através de códigos, links ou stories pagos.
No último episódio, concluímos que as apostas online estão por todo o lado; agora, olhamos para todo este circuito: do mercado regulado aos contextos em que a recaída é activamente incentivada.
Nota: duas das vozes que ouvimos neste episódio foram recriadas com recurso a inteligência artificial, para proteger a identidade das pessoas entrevistadas.
Se este tema te é difícil, ou se reconheces sinais de jogo problemático em ti ou em alguém próximo, a ajuda existe.
A APAJO disponibiliza uma linha de apoio com psicólogos especializados, todos os dias entre as 16h e as 20h.
Os Jogadores Anónimos têm reuniões regulares, presenciais e online. Pedir ajuda pode ser o primeiro passo para sair do ciclo.
Se estiveres a atravessar uma crise emocional grave ou pensamentos suicidas, podes ligar gratuitamente para o SNS 24 (808 24 24 24), opção de apoio psicológico, ou procurar ajuda imediata ligando para o 112.
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